Capitão de time do Brasil em Copa infantil é assassinado em Fortaleza

O sonho de Rodrigo Kelton, 14, era jogar futebol num time profissional, se possível o Fortaleza, seu clube do coração.

Ele era o capitão da seleção brasileira no Street Child World Cup, espécie de Copa do Mundo disputada por crianças de rua, criada por uma ONG inglesa.

Rodrigo chegaria ao Rio amanhã, mas faltando pouco mais de um mês para o início do torneio, no domingo, ele foi assassinado com cinco tiros na periferia de Fortaleza.

Morador de Genibaú, comunidade pobre da capital do Ceará, ele caminhava perto de casa, em 14 de fevereiro, quando um atirador, numa bicicleta, o atingiu com dois tiros nas costas e três na cabeça.

“Isso nos mostra como são constantes os assassinatos destes jovens, quase sempre invisíveis aos olhos da sociedade”, disse Renato Rocha, 38, do Street Child World Cup.

Em nota, a Polícia Civil do Ceará disse que está ouvindo testemunhas, mas não informou se já identificou suspeitos. Uma hipótese é que a morte tenha sido ordenada por traficantes locais em retaliação a furtos cometidos por Rodrigo no bairro.

A família do garoto deixou às pressas Genibaú.

“Ele vinha praticando furtos na comunidade. Foi apreendido pela polícia e passou 45 dias num centro para adolescentes infratores no ano passado”, disse Antônio Carlos da Silva, 30, educador da Associação Beneficente O Pequeno Nazareno.

Coube à ONG escolher os nove garotos do time brasileiro na competição, que reúne 19 países.

“Rodrigo era o craque do time. Com o talento que tinha, poderia chegar ao futebol profissional”, diz Silva.

Ele conheceu Rodrigo num terminal rodoviário de Fortaleza, em 2009. O garoto, então com 9 anos, tinha pai alcoólatra e mãe usuária de crack. Os dois eram separados e vagavam por Fortaleza.

Rodrigo também passou a viver na rua com o irmão mais velho, que vivia de roubos e furtos a pedestres. Entre 2010 e 2012, viveu num abrigo da Pequeno Nazareno. Saiu de lá no início de 2013 para voltar a viver com a mãe, que fazia tratamento contra o vício.

“Mas a mãe teve uma recaída e Rodrigo voltou às ruas. Acabou detido sob acusação de furto”, disse Silva.

Ao deixar a internação, em outubro, Rodrigo voltou ao abrigo e começou a treinar.

Silva contou aos garotos que a disputa tinha o apoio do Barcelona, da Espanha, e de astros da bola, como o ex-jogador David Beckham.

Rodrigo esperava chamar a atenção de algum olheiro europeu e, num golpe de sorte, mudar sua história.

FONTE: Folha de São Paulo

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