“Livros só mudam as pessoas”

No presídio, como explica Daniele, as notícias chegam aos poucos, pela família, nas visitas, ou pela assistência social. “Aqui a gente tá parado no tempo. Tem dias que você acorda mais esperançoso, mas tem dias que você acha que nunca mais vai sair. Aí nesses dias você pega um livro e ele te renova”, desabafa.

Para ela, o último dia 3 de fevereiro foi um desses dias. Teve seu pedido de revisão da pena negado. Depois da notícia, recorreu a Randy Pausch e sua última palestra. O professor de Ciência de Computação na Carnegie Mellon University é o protagonista de “A Última Lição”, livro em que ministra sua aula de despedida na universidade estando com um câncer irreversível no pâncreas. “Aí a gente pensa: poxa, eu não tenho doença de nada e tô aqui, reclamando. E isso dá esperança na gente, faz a gente pensar na vida, em como vai ser quando sair”, traduz a interna.

Daniele foi presa por tráfico de drogas. Segundo a última pesquisa encomendada pela Secretaria de Justiça, cerca de 60% das mulheres do Auri Moura Costa foram detidas por esse mesmo delito. Inspirando-se em Cyntia Corvelo – interna responsável pela biblioteca de 2010 a 2013, que, estudando com os livros do acervo, passou no vestibular para História, na Universidade Federal do Ceará, em 2011 – Daniele já fala em tentar o Enem. “Nem sei ainda o que quero fazer. Talvez Psicologia”, ensaia.

Hábito

Segundo a responsável pelo acervo, boa parte das leituras gira em torno desse universo de ficções estrangeiras, de leitura rápida; suspenses e tramas policiais; e livros de autoajuda ou de temática espírita. “Os da Zíbia Gasparetto já estão caindo aos pedaços!”, brinca. Há detentas que trouxeram de casa o hábito da leitura, mas a maioria delas o desenvolveu ali, por intermédio das colegas.

“Muitas delas só começaram a ler por que incentivamos. Elas contam muito com isso. Quando eu indico um livro, logo entra gente na fila pra ler também”, afirma. De fato, o que se percebe é a construção de uma rede, que gira em torno de uma seleção limitada de livros, mas com boa adesão e excelente ritmo de leitura. “Até as mãezinhas da creche leem. Elas chegam pra mim e dizem: ‘olha, tô gostando muito daquele livro que você me indicou, viu? Só não terminei ainda porque o menino não deixa!'”, acrescenta Daniele. O ritmo varia, mas as leitoras levam, em geral, um só dia para finalizar um livro. As que preferem uma leitura “demorada”, levam de dois a três dias.

A cada dia, “a biblioteca desce”. Isso quer dizer que Daniele vai até as alas (chamadas de vivências) com uma espécie de carrinho, abastecido com uma seleção de livros. Pelas grades, a interna recebe os já lidos e oferece novos títulos. “Aqui tem muita menina que não sabe ler. Aí as que sabem pega os livros e leem em voz alta, dentro da cela. É a leitura solidária”, revela.

Duas das leitoras assíduas da unidade são Ana Carolina de Oliveira, de 19 anos, e Ana Cláudia Rodrigues, de 36. No dia de nossa visita, Carolina já sentia um gostinho de liberdade – estava aguardando a ordem de soltura do juiz. Já Ana Cláudia tem cinco anos e oito meses de Auri Moura Costa.

Questionada sobre alguma perspectiva de saída, Claudia resume: “A gente sabe quando entra, né, doutora? Mas pra sair, complica”.

Ela tinha em casa uma irmã “fanática por livros”, mas começou a ler por intermédio de Cyntia. “Eu via o amor que ela tinha pelos livros e fiquei curiosa. Aí percebi que a gente começava a ler e logo chegava a hora do almoço. Aí depois a gente lia mais um pouco e eles fechavam as luzes pra dormir. Passa mais rápido”, disse Claudia, como se tivera descoberto uma máquina do tempo.

Preconceito

Aquele objeto que Cláudia descobrira com maior intimidade na prisão, Carolina já conhecia. Começou a ler por causa da mãe. “Ela trabalha em uma empresa que tem uma biblioteca e os funcionários podem alugar livros. Aí ela levava uns livros pra casa e eu me interessei em ler. Com pouco tempo, eu já lia mais do que ela”, comenta.

Nessa época, leu Paulo Coelho, Danielle Steel e desenvolveu uma preferência por livros de suspense. “Ela já chegou aqui perguntando se tinha Sidney Sheldon”, recorda Daniele. A poucas horas da liberdade, as colegas cobram que ela volte, mas dessa vez para trazer encomendas. “Pedi minha mãe pra comprar uns livros e vou trazer pra cá”.

Do lado de fora, Carolina diz que sofria preconceito por que gostava de ler. Seus amigos mais próximos achavam aquilo tudo uma perda de tempo. No presídio, algumas mulheres também pensam assim. “Eu digo pra elas: mulher, é melhor estar lendo do que ficar aí de conversinha ou pensando besteira, não é?”, concorda Cláudia.

Para a mais velha, o livro que mais a emocionou foi “Falcão – Mulheres e o Tráfico”, de Celso Athayde e Mv Bill, rapper que, aliás, promoveu um lançamento desse livro no Auri Moura Costa, em abril de 2008. “No dia, a fala dele foi muito legal e eu fiquei com vontade de ler. Pra mim, é um dos melhores”, indica.

Pergunto à Cláudia sobre seus filhos, e ela me diz com orgulho que o mais velho, de 19 anos, lê muito. Os outros dois tem 18 e 16. “Eu só não sei dizer que tipo de livro ele lê. São cinco anos aqui… Eu tô muito por fora”, conclui.

Daniele, cujo tempo de reclusão é ainda incerto, sente-se mudada, apesar dos poucos meses. Aprendeu algumas palavras, expressa-se melhor. Seu ritmo de leitura também foi aprimorado e agora já sabe aguardar até que um livro lhe conquiste. Não desiste fácil.

Ressente-se, contudo, que alguns de seus livros preferidos estejam sem continuação. “É terrível quando a gente lê um livro e não tem o resto! Já roí minhas unhas todas com esse da Bella Andre”, confessa, empolgada. Olhei para ela e sorri também, pois acabava de sentir o mesmo lendo a saga “Jogos Vorazes”.

Rimos juntas. Eu e Daniele temos a mesma idade. Nós, tão próximas e, por enquanto, distantes. Mário Quintana disse: “livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”. Para alguns, talvez isso baste. (MA)

FIQUE POR DENTRO
Doações e remissão de pena por leitura

A cada três dias trabalhados, as internas têm direito à redução de um dia de pena. Segundo a Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado do Ceará, está em estudo a implantação de um projeto de remissão de pena por leitura, tal como já acontece nos presídios federais. Na Portaria Federal 276 do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), a cada publicação lida, a pena do preso pode ser diminuída em quatro dias. No total, a redução poderá chegar a 48 dias em um ano da leitura de 12 livros. Quem tiver interesse de doar livros novos e usados às penitenciárias cearenses, basta encaminhar a Sejus (Rua Tenente Benévolo, 1055, Meireles), de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.

FONTE: Jornal Diário do Nordeste

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